TEATRO: O PAGADOR DE PROMESSAS - A peça teatral O pagador de
Promessas (Agir, 1961), do escritor, dramaturgo, autor de telenovelas e membro
da Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes (Alfredo de Freitas Dias
Gomes – 1922-1999), foi escrita em 1959 e estreou nos palcos brasileiros em 1960,
no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. A sua trama envolve o
enredo com o incidente em que o protagonista Zé do Burro, um lavrador
simples do interior da Bahia, profundamente apegado ao seu burro de estimação,
quando o animal é gravemente ferido na cabeça pela queda de um galho de árvore.
Por causa disso, o dono faz uma promessa para salvá-lo: jura que, se o burro
sobreviver, doará metade de suas terras aos pobres e carregará uma pesada cruz
de madeira, igual à de Jesus Cristo, desde sua fazenda até a porta da Igreja de
Santa Bárbara, em Salvador. Dá-se então um impasse porque Zé do Burro fez a
promessa em um terreiro de candomblé, associando Santa Bárbara a Iansã. E, quando
ele chega exausto a Salvador após caminhar sete léguas, o padre da igreja
recusa-se a deixá-lo entrar ou a aceitar a cruz, considerando o ato uma heresia
e intolerância religiosa. Assim, impedido de entrar, Zé vira o centro das
atenções: ao seu redor, oportunistas tentam tirar proveito de sua história:
jornalistas sensacionalistas distorcem os fatos, políticos tentam usar sua
imagem para fazer campanha, líderes religiosos o rechaçam, e figuras marginais
(como o gigolô Bonitão e a prostituta Marli) tentam manipular a situação. Nesse
ínterim, a sua esposa, Rosa, também demonstra insatisfação e amargura com a
pobreza e a obsessão do marido. Dá-se, então, um desfecho trágico: preso à sua
inocência e convicção ética, Zé recusa-se a negociar ou renegar a promessa. A
confusão escala até que ele é confrontado pela polícia, que o confunde com um
agitador político ou arruaceiro. No final, Zé do Burro é morto a tiros na porta
da igreja. O povo, comovido e consciente da injustiça, coloca seu corpo sobre a
cruz e o carrega para dentro do templo em um gesto de revolta e libertação. Em
síntese, a peça teatral contrasta a fé pura, sincera e quase ingênua do homem do
povo com o dogmatismo rígido, burocrático e excludente das instituições
religiosas. Além
disso, mostra como a sociedade urbana (imprensa, igreja,
política e comércio), tentando cooptar, mercantilizar ou destruir a pureza de
um ideal humano, evidenciando o choque cultural entre o sincretismo religioso
brasileiro e a ortodoxia católica. É autor de outras peças teatrais que
obtiveram sucesso de público e crítica, a exemplo A Comédia dos
Moralistas (1938), Amanhã Será Outro Dia (1941),
Zeca Diabo (1943), A Revolução dos Beatos (1961), Odorico, o
Bem Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte (1962), O Santo Inquérito
(1966) e Roque Santeiro, o Musical (1995), entre outras. Também dos
livros Sucupira, Ame-a ou Deixe-a (1982) e Odorico na Cabeça
(1983), afora ter atuado na televisão autor de várias novelas, a exemplo de O
Bem-Amado (1973), Roque Santeiro (1975) e Saramandaia (1976) e das séries Carga
Pesada (1979/1980) e O Bem-Amado (1980-1984). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
CINEMA - O filme O pagador de Promessas
(1962), escrito e dirigido pelo ator, roteirista, escritor e cineasta, Anselmo
Duarte (Anselmo Duarte Bento – 1920-2009), é baseado na peça de Dias Gomes,
com o enredo que narra a promessa de Zé do Burro (interpretado por Leonardo
Villar), um lavrador simples do interior da Bahia, cuja principal companhia e
amigo é seu burro, gravemente atingido por um raio durante um temporal.
Desesperado, ele faz uma promessa em um terreiro de candomblé a Santa Bárbara
(sincretizada com Iansã), sob a condição de, se o animal sobreviver, ele doará
seu pedaço de terra aos pobres e carregará uma pesada cruz de madeira, igual à
de Jesus, até a Igreja de Santa Bárbara em Salvador. A jornada se dá porque o burro
curou-se e Zé do Burro determinou-se em cumprir sua palavra, cortando a cruz e
caminhando quilômetros até Salvador ao lado de sua esposa, Rosa (interpretada
pela atriz, Glória Menezes), enfrentando exaustão física e a incompreensão das
pessoas ao redor. Ao chegar diante da igreja, Zé é impedido de entrar pelo
Padre Olavo (interpretado por Dionísio Azevedo), pois, o sacerdote recusa a
entrada da cruz ao saber que a promessa foi feita em um terreiro de candomblé,
a uma entidade de matriz africana, considerando o ato uma heresia. Zé, fiel aos
seus princípios e incapaz de entender a burocracia e o preconceito
eclesiástico, decide acampar na escadaria da igreja até que o padre o deixe
entrar. A sua permanência na praça atrai diferentes grupos que tentam usar sua
história para interesses próprios: a imprensa e o rádio distorcem os fatos,
transformando-o falsamente em um líder comunista e defensor da reforma agrária
para gerar escândalo e audiência; os interesses políticos e religiosos tentam
cooptá-lo ou silenciá-lo; personagens marginais, como Marli (interpretada pela
atriz, Norma Bengell) e o cafetão Bonitão (interpretado por Geraldo Del Rey),
tentam se aproveitar da fragilidade de Rosa, gerando tensões conjugais. O
desfecho trágico se dá com o confronto ocorrido na porta da igreja, quando Zé escala
os degraus, criando um tumulto quando a polícia tenta expulsá-lo à força. No
meio da confusão e dos tiros, Zé é atingido por uma bala perdida e cai morto. Diante
do corpo do homem estendido sobre a cruz que carregou, o povo se revolta contra
o padre. Os populares forçam a abertura das portas da igreja e carregam o
cadáver de Zé do Burro para dentro do templo, transformando-o em um mártir da
causa popular e da liberdade de crença. O filme foi o primeiro sul-americano a
vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes (em 1962) e o primeiro indicado
brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (em 1963). Por conta disso, o
cineasta é considerado um dos maiores nomes do cinema brasileiro, com extensa
carreira como ator em filmes e telenovelas. Como ator, Anselmo Duarte atuou no
documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens (2009), Tico-Tico no Fubá (1952), entre outros tantos. Como cineasta realizou O
Caçador de Esmeraldas (1979), Já Não Se Faz Amor como Antigamente
(1977), Ninguém Segura Essas Mulheres (1976) e tantos outros. Veja mais
aqui.









